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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um acampamento do barulho


Um dos meus sonhos de criança, além de construir um avião usando muita madeira e uma bicicleta, era acampar. Provavelmente por isso meu irmão e eu fizemos minha mãe comprar a toca do gugu: pequena pra quem vê, menor ainda pra quem enfia a cabeça, pois era só o que cabia nela. Antes de comprar esse indispensável item do manual de sobrevivência, eu organizei um acampamento com meu irmão, um primo e duas primas. 
Graças a uma cabana que eu tinha desde praticamente recém-nascido, como essa, eu utilizava os paus dela pra fazer vários tipos de barraca. Deu pra fazer duas em formato de triângulo, que formavam uma barraca só quando unidas com duas vassouras. Mais ou menos assim:


nem me esforcei pra desenhar, caramba.

O acampamento seria na sexta à noite (claro) e, durante a tarde desse mesmo dia fizemos uma série de testes de resistência com as barracas. Aliás, me enganei, foi só um teste, que consistia em colocar um ventilador na velocidade máxima apontando em todos os lados da barraca. Isso supostamente seria pra simular, com a maior precisão possível, os fortes ventos que costumam assolar nossa cidade. Também chamados de inexistentes. Se bem que houve um vendaval de 75 km/h faz um ano e eu consegui não perceber porque tava com a janela fechada, estudando. Não noto ciclones, mas baratas voadoras entram fácil aqui. 
Separamos biscoitos, água, salsichas em lata, espetos de churrasco, papel e fósforos pra fazer a fogueira, lençóis e travesseiros. O acampamento seria no quintal de minha avó, logo abaixo do escritório do meu avô, que fica no fundo, no primeiro andar. Enquanto arrumávamos e montávamos as barracas, minhas primas ficavam assistindo Maria do Bairro, que era uma febre naquela época. Sendo completamente honesto, todos nós assistíamos, então a montagem foi bem lenta.


Falando em lentidão, meu irmão devia ter problemas. Ele ficou cuspindo água em todos os  cantos do pátio, enquanto ria muito. Tive que expulsá-lo. Acho que ele forçou a própria expulsão pra ver filmes violentos na HBO. Com 9 anos.
Superado esse pequeno encalço com o qual compartilho meu DNA, fizemos rapidamente uma fogueira de papel, que também se mostrou rápida porque papel queima e apaga em alguns segundos. Esse foi o tempo que tivemos pra assar as salsichas. Meu primo disse que tavam deliciosas, mas não posso falar o mesmo porque derrubei a minha no papel queimado, bem na hora de comer. O gosto não ficou exatamente um sonho. A fogueira foi rápida, mas não o suficiente pra passar despercebida de meu avô, que soltou um célebre "QUE FOGO É ESSE AÍ?". 
Entramos nas barracas pra dormir. Logo no começo, minha prima falou:
- Hum, que friozinho gostoso.
5 minutos depois:
- Meu Deus, que CALORRRRRR! - e tirou a blusa por baixo do lençol.
10 minutos depois, tava só de calcinha. Eu estava do lado oposto, na ala masculina da barraca (composta por meu primo e eu), reclamando da palha da vassoura na minha cara. Na barraca montada por mim mesmo. O garoto da vassoura de palha na cara e a menina de calcinha votaram, então tivemos que mudar de moradia. Improvisamos uma barraca melhor no varal, que ficou surpreendentemente muito boa. Lá dentro, não demorou muito pra que todos dormissem, menos eu. Enquanto eu refletia, deitado no chão duro e com a cabeça em apenas um travesseiro, eu percebi por que nunca tinha acampado antes. E que gênio que era meu irmão.

Dedico este post a Cindy, a tolinha que tá ficando velhinha :)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Na hora pareceu uma ótima ideia

Provavelmente, com o tempo, eu pensarei em várias outras grandes ideias que já tive nessa louca vida. Afinal, os grandes homens tentam e erram. Faz parte. Acontece que, na hora, você pensa: "poxa, usar um colchão como trenó e descer essa escada da casa de vovó vai ser muito radical". Quando você se move 10 centímetros por hora é que você nota que algumas concepções podem ser falhas.



Comprei um jogo do wii em que há diversas atividades, como ioga, canoagem, boxe, step, corrida. Certo dia, eu tava espirrando e temia que minha corrida pela orla poderia estar comprometida. Como fazemos tudo em nome da boa forma e como eu queria experimentar correr no vídeo-game, resolvi arriscar. Funcionava assim: você liberava um certo espaço em frente à tv. Então, você colocava o controle do wii no bolso e corria sem se mover (?). O sensor captava o balanço do controle e o bonequinho cabeçudo começava a correr. Eu tinha determinado um tempo: 15 minutos, crente que seria pouco e que ainda acrescentaria uns minutos depois. Ledo engano, meus amigos. Esse jogo não simulava em nada uma corrida real. Pra você correr mais rápido, não bastava simplesmente se mexer mais rápido. Era preciso levantar as pernas, só assim o boneco acelerava. Como o controle ficava no bolso de atrás, acho que dançar o rebolation provavelmente teria o mesmo efeito. Eu já corri 50 km em 5 dias e foi tranquilo, mas a dor que senti nas panturrilhas depois de correr nesse negócio foi absurda. Foram uns 3 ou 4 dias de dor. Foi mesmo uma experiência única: nunca mais faço de novo.



Quando meu irmão e eu éramos menores, acho que ele tinha 9 e eu 10 anos, nosso sonho era ganhar uma toca do gugu. Nosso diálogo com minha mãe é que foi digno de condenar um passado. Meu irmão:
- Compre, mãe, ter uma Toca do Gugu é o meu sonho.
- Nosso! - completei.
É, os sonhos tendem a fazer as pessoas falarem frases dramaticamente inesperadas.
Fomos no supermercado e pagamos algo em torno de 80 reais, isso há 13 anos. Em valores de hoje, acho que daria pra uma barraca para 8 pessoas. Só sei que o valor foi alto, prova disso foi que, quando estávamos no estacionamento, colocando as compras (dentre elas, a toca), vi um folheto das Americanas. Falei:
- Olha, mãe, nas Americanas tem a toca do gugu por 69 reais!
- PORRAAAAAAAAA!
Gugu é foda.
Pra falar a verdade, essa toca deveria se chamar toca do tatu, porque, mesmo com 9 anos, ela era muito pequena. Era enfiar só a cabeça, fechar o zíper e dormir.