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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Corredorzinho

Corredorzinho é um eufemismo, uma denominação afetuosa para o temido "corredor da morte". Todos aqueles que participavam do jogo ficavam ao longo de um corredor de guris formado ao longo da quadra de futsal. A vítima tinha que atravessar de uma trave à outra com o menor número de hematomas possível.
Mas esse não era o único elemento da brincadeira. Na época de colégio, a generosidade e a ternura das crianças são algo que até hoje resgato em minhas memórias, especialmente quando animado por esse espírito natalino do momento. O corredorzinho era a punição alternativa de uma brincadeira chamada "três beijinhos". Esta, por sua vez, tinha como principal mandamento que, toda vez que os participantes se sentassem, teriam que pedir licença. Se não pedissem, teriam que dar três beijos numa menina que os outros escolhessem. Como o altruísmo não fazia parte do vocabulário de ninguém, a escolha era sempre uma das meninas, digamos assim, desprovidas de uma beleza externa. 


E já que a falta de noção era a primeira regra (afinal, olha as coisas que a gente topava), ninguém queria dar os beijos. E nem eram na boca, eram na bochecha. A juventude era mesmo genial: "Não, eu não quero dar três beijos na face de uma semelhante e perder até a chance de começar uma bela história de amor". Nem passava pela nossa cabeça que muitas evoluem, quando maiores. No Manual de Sobrevivência do ginásio, o que valia era o presente. E só.
Em algum momento da brincadeira deslizes seriam cometidos. E então, um bando de garotos sedentos por violência fariam justiça com as próprias mãos. Pra falar a verdade, não sei como nenhum colega não levou nada disso pra vida. Porque deixar de dar meros beijos numa menina pra encarar socos e chutes, enquanto outros sonhavam em aplicar esses mesmos golpes é bem deturpado. Se bem que, no meu caso, isso pode explicar muita coisa kkkkk.
Algumas partidas foram memoráveis. Acho que a maior fatalidade que vi foi quando um amigo, que estava quase alcançando a trave, tropeçou e quebrou o braço. Fora isso, as sequelas foram mais psicológicas. Se não saía sangue, tava valendo. 
Tinha um outro colega que detém o recorde escolar de apanhar de todos os meninos na sua turma. Vamos apenas chamá-lo de b-b-beiço, porque ele era beiçudo e gago. Ele era tão legal que o que acontecia era o seguinte: ele participava com, digamos, 12 outros colegas. Quando ele não pedia licença e ia para o corredorzinho, milagrosamente apareciam 30 meninos esperando pra espancá-lo. Acho que até de outras turmas. Mas ele sempre sobrevivia.
Acabou sobrando pra mim também. Mas não aconteceu nada demais. Acho que todo mundo, em algum momento da escola, já pegou carona de ambulância.

domingo, 7 de novembro de 2010

O incrível ninja


Quando pequeno, sempre fui fã de heróis japoneses. Jiraya, Jiban, Kamen Rider, Jaspion. Esse mundo de robôs, ninjas e besouros que combatiam o crime com espadas, motos e um pouco de óleo em suas juntas era fascinante.
Como era uma febre aqui no Brasil, as marcas de brinquedos lançavam os bonecos e fantasias. Não deveria revelar isso, mas, por muitos anos, entre meus primos menores, minha identidade secreta era Jiraya. Eu também era o monstro, já que não tinha mais ninguém disposto a fazer esse papel. 


Eu devia ter uns 6 anos e estudava num colégio pequeno chamado São Francisco de Assis. Era pequeno, devia ter, no máximo, umas 6 salas. Eu tinha um boneco de Jiban, o policial robô, e de Kamen Raider Black RX, um policial-besouro que tinha uma moto massa. 
Estava de bobeira com meus dois bonecos, na hora do recreio, quando um garoto gordo aparece. Gordo não, se eu pesava cerca de 20 kg, ele pesava uns 45. Ele, que devia estar chateado por não ter encontrado nenhum gato pra enforcar naquela semana, chegou pra mim e falou:
- Esses bonecos são meus.


Ainda faltavam uns 15 anos pra eu entrar na faculdade de Direito e estar familiarizado com o direito de propriedade, mas, já naquela tenra idade, a lógica pôde me iluminar a falar:
- Não são, não.
Ainda faltavam 15 anos pra ele ser preso pela primeira vez, então o que a lógica de um serial killer lhe permitiu fazer foi pular em cima de mim. Literalmente. Ele começou a puxar meu cabelo, enquanto seu corpo regado a fandangos e hambúrguer sentava sobre o meu, indefeso. Como o ser humano é esse ser incrível (uma porra que é!), logo juntou aquela galera ao redor. Meu único e último movimento foi esticar meu braço e topar o tênis de uma coleguinha, falando:
- Cha.. chame a... professora
A vadia, digo, a menina, nem se mexeu. Será que só tinha psicopatas naquele colégio, São Francisco? Felizmente, apesar da minha mente em agonia achar que o mau imperaria sobre o bem, a professora chegou e me salvou. É claro que minha mãe foi lá quebrar tudo depois da aula. Até tinha saído sangue de leve. Anos depois, prometi a mim mesmo que iria proteger os fracos e oprimidos me vestindo de jiraya no carnaval.

domingo, 12 de setembro de 2010

Vivendo a vida perigosamente

De vez em quando comemos um danoninho estrago e queremos experimentar um perigo. Dar uma mordida em papel alumínio com aqueeele dente obturado, assistir por meia hora ao programa de Sonia Abrão, andar de bicicleta sem as mãos (utopia pra mim), essas coisas. Mas, quando você já bebeu algumas latinhas de cerveja, sua percepção da realidade pode ficar, digamos assim, meio "super-heroica".
Era um festival de forró organizado pela Prefeitura, há uns 3 anos. Além de ser gratuito, era no mercado da cidade, onde o cheiro de peixe podre dava aquele ar de... de cheiro de peixe podre mesmo. Além disso, o forró era em junho, bem na época de chuvas. A lama rolava solta.
Eram umas 4 horas da manhã e Elba Ramalho - que tem convênio vitalício com a Prefeitura e comemorava seu 90º aniversário - já tinha mostrado toda a sua arte. Eu tava comendo pipoca (camiseta grátis e pipoca não se dispensam) e conversando com um amigo. Esse amigo, por sua vez, tinha encontrado uns amigos e um deles conversava com uma menina. Até aí tudo bem, exceto por seu namorado, ligeiramente ciumento, que deu uma voadora no garoto. Do nada, sem nem avisar. Começou a pancadaria. Além de estar numa posição privilegiada pra assistir ao confronto, eu ainda tinha a pipoca, então que ótima decisão eu havia tomado!
Falei:
- Caramba! - e ofereci pipoca ao meu amigo.
Mas aí, os tais dos aplicadores da lei, vulgo policiais militares, apareceram pra separar a briga. Foram logo entortando o braço do amigo do meu amigo e levando o coitado para um pequeno "sermão prático". Foi aí que eu, um mero estudante de 5º período de Direito na época, dei uns tapinhas no ombro do Policial e falei as 3 palavras mais arriscadas da minha vida:
- Legítima defesa, pô (quase um malandro).
Meus amigos, eu agradeço muito ao Estado de Democrático de Direito por permitir que pessoas com todos os tipos de deficiência - como as auditivas, por exemplo - possam concorrer a cargos públicos. Porque ele só podia ser surdo. Do contrário, o nome desse blog provavelmente seria "Minha enfermeira já contou essa?". 

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Coleguinhas excêntricos

Na época de colégio, temos todos os tipos de colegas: o nerd, o palhaço, o não tão bom nos esportes, o pegador e por aí vai. Quem, por exemplo, nunca ganhou meia por 2 anos consecutivos daquele colega gordinho e que, de quebra, ainda levava seu primo repolho para todos os seus aniversários? Totalmente fictícia esta pergunta. Queria eu acreditar.
Falando em aniversários, sempre tinha aquele que chegava tipo meia hora antes da festa começar. Não era seu melhor amigo, longe disso. Era daqueles que ficavam desenhando dinoussauros durante os intervalos e que, se somasse todos os minutos que você conversou com ele, não daria nem o tempo que levava pra amarrar o cadarço. Mas era carta marcada: você ainda enchendo os balões com sua mãe gritando "CALÇA LOGO ESSE TÊNIS, MENINO!" e lá vem ele, vestindo uma camisa polo (por dentro da calça) abotoada até o nariz.
Acho que, nem se fosse aquele colega saco-de-pancadas, seria tão dolorosa essa meia hora. Os deste grupo quase sempre usavam camisas com golas folgadas, de tanto que eram puxados e/ou se metiam em brigas. Detinham o recorde escolar de brigas, geralmente apanhando de todos, como daquele cara que, devido ao seu físico avantajado, tinha o apelido de Gina. Novamente, totalmente fictícia esta parte, claro.
Clássico era aquele coleguinha dramático. Em trabalhos em grupo, era extremamente produtivo: você falava pra ele pintar um prédio; ele pegava uma caixa de palitos, dava literalmente duas pinceladas de tinta e dizia que estava pronto. Na hora da "lavagem de roupa" (alguns professores adoravam isso, e olhe que ainda nem existia Big Brother), esse garoto dava show. Falava que fazia tudo, que ninguém gostava dele e que não suportava mais viver num mundo onde a inversão de valores e o desrespeito à dignidade da pessoa humana imperavam. No final das contas, você passava meia hora com ele fácil.
Não poderia me esquecer do palhaço da sala. Sua kriptonita era sentar do meio pra frente e sempre mandava o insuperável "tem dado em casa?" com aquele sorriso maroto. Nas festinhas em sala, levava brigadeiro com passas dentro, ou então aquele bolo de padaria que ninguém comia. Um eterno sacana. Vou até ligar pra ele pra saber qual é a boa desse fim de semana.