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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Um acampamento do barulho


Um dos meus sonhos de criança, além de construir um avião usando muita madeira e uma bicicleta, era acampar. Provavelmente por isso meu irmão e eu fizemos minha mãe comprar a toca do gugu: pequena pra quem vê, menor ainda pra quem enfia a cabeça, pois era só o que cabia nela. Antes de comprar esse indispensável item do manual de sobrevivência, eu organizei um acampamento com meu irmão, um primo e duas primas. 
Graças a uma cabana que eu tinha desde praticamente recém-nascido, como essa, eu utilizava os paus dela pra fazer vários tipos de barraca. Deu pra fazer duas em formato de triângulo, que formavam uma barraca só quando unidas com duas vassouras. Mais ou menos assim:


nem me esforcei pra desenhar, caramba.

O acampamento seria na sexta à noite (claro) e, durante a tarde desse mesmo dia fizemos uma série de testes de resistência com as barracas. Aliás, me enganei, foi só um teste, que consistia em colocar um ventilador na velocidade máxima apontando em todos os lados da barraca. Isso supostamente seria pra simular, com a maior precisão possível, os fortes ventos que costumam assolar nossa cidade. Também chamados de inexistentes. Se bem que houve um vendaval de 75 km/h faz um ano e eu consegui não perceber porque tava com a janela fechada, estudando. Não noto ciclones, mas baratas voadoras entram fácil aqui. 
Separamos biscoitos, água, salsichas em lata, espetos de churrasco, papel e fósforos pra fazer a fogueira, lençóis e travesseiros. O acampamento seria no quintal de minha avó, logo abaixo do escritório do meu avô, que fica no fundo, no primeiro andar. Enquanto arrumávamos e montávamos as barracas, minhas primas ficavam assistindo Maria do Bairro, que era uma febre naquela época. Sendo completamente honesto, todos nós assistíamos, então a montagem foi bem lenta.


Falando em lentidão, meu irmão devia ter problemas. Ele ficou cuspindo água em todos os  cantos do pátio, enquanto ria muito. Tive que expulsá-lo. Acho que ele forçou a própria expulsão pra ver filmes violentos na HBO. Com 9 anos.
Superado esse pequeno encalço com o qual compartilho meu DNA, fizemos rapidamente uma fogueira de papel, que também se mostrou rápida porque papel queima e apaga em alguns segundos. Esse foi o tempo que tivemos pra assar as salsichas. Meu primo disse que tavam deliciosas, mas não posso falar o mesmo porque derrubei a minha no papel queimado, bem na hora de comer. O gosto não ficou exatamente um sonho. A fogueira foi rápida, mas não o suficiente pra passar despercebida de meu avô, que soltou um célebre "QUE FOGO É ESSE AÍ?". 
Entramos nas barracas pra dormir. Logo no começo, minha prima falou:
- Hum, que friozinho gostoso.
5 minutos depois:
- Meu Deus, que CALORRRRRR! - e tirou a blusa por baixo do lençol.
10 minutos depois, tava só de calcinha. Eu estava do lado oposto, na ala masculina da barraca (composta por meu primo e eu), reclamando da palha da vassoura na minha cara. Na barraca montada por mim mesmo. O garoto da vassoura de palha na cara e a menina de calcinha votaram, então tivemos que mudar de moradia. Improvisamos uma barraca melhor no varal, que ficou surpreendentemente muito boa. Lá dentro, não demorou muito pra que todos dormissem, menos eu. Enquanto eu refletia, deitado no chão duro e com a cabeça em apenas um travesseiro, eu percebi por que nunca tinha acampado antes. E que gênio que era meu irmão.

Dedico este post a Cindy, a tolinha que tá ficando velhinha :)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Nitroglicerina pura

A coisa mais instável e imprevisível que existe neste planeta não é nitroglicerina pura. Não é Lindsay Lohan, muito menos as placas tectônicas do pacífico. São as baratas voadoras. Como só eu tenho a sorte de encontrá-las aqui em casa e como elas escolhem justo o meu quarto, eu não sei. Só não consigo entender como elas entram, já que são quase do tamanho de uma tartaruga gigante. Devem ter a chave da porta da minha varanda, isso faz mais sentido.
Havia tempo que uma delas tinha entrado aqui. De repente, sem nem avisar, vi aquela coisa cascuda e vingativa andando pela parede, perto da janela. Tremi, coloquei uma faixa vermelha de Rambo na testa e joguei a sandália. Como minha péssima pontaria e o nervosismo dessa experiência de quase-morte andam ao lado nessas horas, é claro que eu errei o arremesso. Mas foi bom, a sandália poderia ter partido ao meio se a acertasse. Tirei coragem de algum lugar e, na segunda tentiva, não enviei nenhum representante, fui pessoalmente junto à parede ceifar a vida daquele ser doce e sereno. 

tá louco

Essa foi uma experiência positiva. Recentemente, eu tava vendo TV de madrugada quando um grande ponto preto surgiu no extremo do meu campo de visão. Qual não foi a minha surpresa quando constatei que uma barata voadora, mais ou menos do tamanho de um gato vestido de barata voadora, surgia na quina do teto. Já que eu não tinha nenhum lança-chamas, tive que improvisar jogando a sandália mesmo. Antes, abri a porta, porque haveria a grande chance de eu precisar sair correndo.
Ela mal esperou e veio andando pelo teto na minha direção, ameaçando abrir as asas. Essa conduta suja dela deveria ser proibida em algum tratado que regulamenta guerras. Ignorei a má-fé dela, joguei a sandália e, por incrível que pareça, errei. Meus amigos, eu não desejo a ninguém essa sensação de quem tem a certeza de que uma barata pré-histórica vai voar na sua cara. Tive calafrios e corri como se não houvesse amanhã. Fui pegar uma vassoura mas, quando voltei pro quarto, cadê ela? Procurei e nada. Eu nem tava vendo nenhum filme de suspense, mas a tensão que fiquei foi até pior. Ainda não a encontrei, por isso tenho que viver olhando por cima do ombro no meu próprio quarto. E olhe que ela tem a chave da minha varanda.

Dedico este post a Catarina, pois minha saudade é maior do que essa barata voadora :)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Roberto?

Anos ganhando pontos com os pais te permitem fazer algumas besteiras e não ser acorrentado ao pé da cama. Era 2005, eu ainda tinha a carteira provisória de motorista, mas reinava absoluto sem ter que dividir o carro com meu irmão. Já não dividimos mais faz tempo, principalmente graças a um celular que ele tinha, que evoluiu para um Fusca e para um outro carro bem melhor posteriormente. Eu, por exemplo, só precisei desmaiar pra ganhar um carro zero. História verídica.
O fato é que eu tinha 18 ou 19 anos e estava no auge da estupidez que só essa idade pode proporcionar. Ainda continuo estúpido. Fui com uma amiga para uma festa na casa de uns amigos. Antes, passamos no supermercado e compramos vodca, pingo d'ouro, refrigerante e um twix (glicose para depois, o tolo aqui pensou). Eu comecei a beber nessa época, portanto bastava muito pouco pra me deixar pronto pra ficar nu. Na verdade, até hoje basta pouco, já que não bebo muito, mas não sou de revelar meus segredos.
Chegamos à festa, coisa de 15 pessoas, no máximo. Bebi alguns copos de guaraná com vodca. Pensei que o nome hi-fi servisse pra qualquer vodca que tivesse refrigerante, mas acabei de constatar que não. Que descoberta. Comi o pingo d'ouro antes, pra tapear a fome. Provavelmente eu só adquiri uma pedra no rim de tanto sal que tem nesse negócio, mas acho que valeu. 
Começamos a jogar um jogo simples, porém mortal: todos faziam um círculo e você "assumia" o nome de quem tava à sua direita, e assim seguia. Se Fernanda estava à sua direita, você passaria a se chamar Fernanda e teria que falar "quem não bebe é Fernanda, quem bebe é fulano". Acho que só tinha duas maneiras de errar: falando seu próprio nome ou dizendo "quem bebe é Fernanda". Eu, na prática, percebi que havia uma terceira e surreal maneira de você errar.


tá bêbado(a)?

Eu já tinha bebido 2 ou 3 copos de vodca com guaraná e tinha virado algumas tampinhas de vodca (altamente selvagem o jogo), portanto meu raciocínio tinha começado a ficar comprometido. Quem estava à minha direita era Pardal, que eu acho que tem esse nome por ser quase da altura dos pardais de trânsito. Eu só tinha que falar "quem não bebe é Pardal, quem bebe é fulano". No entanto, minha consciência disse: "fale 'quem não bebe é Pardal, quem bebe é o primeiro nome que vier à cabeça, MENOS Pardal' ". Eu cumpri as ordens e falei:
- Quem não bebe é Pardal, quem bebe é Roberto.
Todo mundo parou.
- Hã?
- Hã?
- Roberto?!
Não havia nenhum Roberto e nenhum Roberto havia passado por ali. Na verdade, o único Roberto que eu conheço nunca foi chamado por esse nome, então podemos concluir que eu vacilei. Coloquei as mãos na cabeça quase que instantaneamente.
- Merrrrrda!
E mais uma tampinha de vodca na conta. Fui deitar pra tirar um cochilo. Numa festa. Às 3h da manhã. Minha amiga acordou e aí eu peguei o meu twix, como se fosse o espinafre do Popeye, iria me deixar como novo. No primeiro pedaço eu tava: "muito doce, não dá, quem foi que comprou isso?". 
Minha amiga pediu a chave do carro e eu nem hesitei em dar. Ainda perguntei:
- Eu vou com você?
- Vai, sim.
Isso no meu carro. E até hoje há um pequeno grupo de pessoas que só me conhecem como Roberto. Foi uma boa festa.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Diabo's


Adoro comprar pão. Tanto quanto eu adoro calças coloridas e filmes dublados. Se antes, adolescente, eu já odiava comprar esse mantimento abençoado que é o pão nosso de cada dia, nos dias atuais eu atingi um novo estágio. Prefiro imaginar a padaria em que vou (a única num raio de uns 4 km, veja você) como uma filial do inferno. Na verdade, eu não me surpreenderia se ela se chamasse "Diabo's" e se o próprio capeta amasse os pães, porque ali deve ser o lugar mais quente da minha cidade. E o dono, com sua visão empreendedora e vanguardista, só mantém uma porta aberta, é um gênio.
Também tenho notado que eu sempre vejo pelo menos uma pessoa de tatuagem quando vou lá. Não que isso indique que são marginais ou coisa do tipo, mas um velho, uma coroa e um cara, no mesmo dia, é uma estranha coincidência. Não fosse o fato de a padaria ser a filial do inferno, eu não estaria pensando, nesse momento, que talvez essas pessoas trocaram suas almas por pães frescos diariamente com o dono do estabelecimento, El diablo.
Mas pior não é o fato de você ter que ir comprar o pão às 18:40, no horário mais movimentado, com fome e com calor. Não. O pior é quando você é contemplado com uma atendente que tem perda de memória recente. Ela, a 60 cm de mim:
- Próximo!
- Quero 4 pães de leite e 5 de sal.
- O quê?
- Quero 4 pães de leite e 5 de sal.
- O quê?
- Me veja um carneiro assado (Né não, repeti o "4 pães de leite e 5 de sal").
Pelo menos ela só precisava de algumas vezes pra memorizar. O pior é uma nova que você fala que quer os 4 de leite e 5 de sal e ela coloca 3 de leite e 4 de batata. Também fui eu o sorteado no dia em que, simultaneamente e com ela, acabaram as etiquetas de códigos de barras e a tinta da caneta pra anotar o preço. Foram deliciosos 20 minutos no inferno.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sacaneio

Meu pai teve uma copiadora por alguns anos, o que me rendeu algum dinheiro e diversos diálogos estranhos. Tipo esse:
- Bom dia, vocês tiram cópia? (pergunta comum, mesmo com o nome COPIADORA estampado lá fora)
- Tiramos, sim.
- E vocês SACANEIAM?
- ... Você diz SCANEIAM?
- É, ISSO!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A arte de pechinchar

Vamos supor que pechinchar seja uma arte. Estabelecido isso, eu seria a Vanuza da pechincha. Ou então o Léo Santana. Consegui o recorde de economizar um real em um dia de compras na 25 de março. Sim, UM REAL. No paraíso das muambas e falsificações, onde coreanos compram mercadorias por 3 reais e as revendem por 20, consegui essa proeza. Fui comprar uma camisa e pensei: "é hora de mostrar o que eu sei". O mesmo que nada.
- Quanto é a camisa?
O coreano:
- 18 leais.
- Faz por 15?
- Non.
- Faz por 16?
- Non.
- Faz por 17?
- Faço.
- Obrigado.
Na verdade, eu fico com medo de que eles vão perder a margem de lucro. Ou que vou causar a perda de parte do sustento dos filhos deles. Ou que vou falar um preço tão absurdo que vão puxar um facão e ceifar minha vida ali mesmo. Tem gente que morre por menos. 
Meu irmão domina essa arte. Ele entra na lojinha do coleano e pergunta quanto é. O coleano, lendo um jornal, diz que é 25. Ele fala que paga 15. O coleano se faz de ofendido, ainda olhando pro jornal. Meu irmão então diz que só paga 20, aí tira a nota e balança na frente do carinha. O coleano vende por 18. É quase como uma dança.
Não seria provável que minhas técnicas não funcionassem em terras longíquas. Por isso, viajei dezenas de milhares de quilômetros até China Town, em Nova Iorque, na Terra do Tio Sam. Comprei umas 30 camisas típicas de "I LOVE NY". Cheguei na coleana e perguntei se não dava pra baixar o preço. Ela
- Non, non, assim vou me plejudicar, né? Vê só:
Digitou lá uns números na calculadora e falou que aquele seria o lucro dela em cada camisa. Olhei e vi uma dízima periódica. Sacanagem, contra dízimas periódicas não há argumentos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Que burro, dá zero pra ele!

Por incrível que pareça, eu já fui professor. Não, não é incrível, eu tenho muito a ensinar mesmo nessa vida. Eu tinha 19 anos e fui dar aulas de reforço de português pra cerca de 12 alunos de 5ª série de um colégio particular em que a grande maioria dos meus primos (eu, inclusive) estudaram. No primeiro dia, uma menina gordinha:
- Professor, seu nome é Gustavo, Felipe ou Tiago.
- É Tiago, mas como você sabe?
- Ah, porque sempre quem é branquinho assim e de cabelo liso tem um desses nomes
A menina é quem deveria dar aula. E isso era realmente o que ela pensava, já que ela chegou a perguntar se eu não queria que ela me ensinasse a dar aula. Não respondi nada, não queria ser o sortudo a conhecer um desses alunos que vez ou outra vêm armados pra escola. Ela também bagunçou meu cabelo uma vez. Altamente psicopata.
Um dos meninos tinha o cabelo bagunçado e usava óculos, era um embrião de intelectual. Na verdade, faltava algum parafuso na cabeça dele, porque sua reação quando falei que quem se levantasse iria sair da sala foi, no mínimo, kamikaze:
- Professor, o Senhor falou que vai tirar da sala quem se levantar?
- É.
Então olha isso aqui. Aí levantou e sentou, levantou e sentou, levantou e sentou. Eu, didaticamente:
- Você tem problemas, meu filho?
Como o método ameaça aparentemente não surtiu efeito, adotei o método suborno. Quem não perdesse os 10 pontos com os quais todos começavam, ganhava chicletes. Funcionou, mas tive que chegar com os bolsos cheios de big-big na aula seguinte. Acho que eles só não quebraram tudo na aula anterior porque eu joguei adedonha com eles. Os grandes mestres ensinam na prática.
Tinha também um menino muito parecido com Cirilo, do clássico Carrossel. 


Ele era tão ou mais kamikaze que o nerdzinho. Falei que ia tirar ponto dele porque ele tava conversando. Ele falou que foi porque o tinham chamado de "picolé de asfalto", por isso ele xingou o menino. Eu não quis saber e fui tirar o ponto. Quando ia riscar, ele segurou a caneta. O debate foi sadio e inteligente. Ameacei:
- Oooooolhe!
- Oooooolhe! - ele me imitou.
- Oooooolhe - eu continuei
- Oooooolhe - ele me imitou e riu.
Eu ri também e não deu em nada. 
Acabei não embarcando nesse carrossel por muito tempo. Ah, um dos alunos se chamava "Hadolf". Isso mesmo, de Adolf Hitler. Acho que não preciso falar mais nada.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Isso nunca vai acontecer comigo

Eu não conseguia entender como muitas pessoas confundiam mulheres gordinhas com grávidas. Até o dia em que fui levar meus óculos pra mudar as lentes. A funcionária da ótica não tinha os braços gordos, só a barriga é que era proeminente. Cheguei, disse o que vinha fazer ela:
- Ah, por favor, sente-se, Tiago.
- Não precisa, prefiro deixar que pessoas que necessitam mais do que eu se sentem, como grávidas, por exemplo - e apontei, sutilmente, pra ela.


Acho que, por estar estranhamente acostumada, ela não teve nenhuma reação. Disse que iria só tirar as medidas e que, como poderia demorar um pouco, eu deveria sentar mesmo. Depois que me sentei, ela falou:
- Eu mesmo não perco uma oportunidade de me sentar. Nos ônibus o pessoal pensa que estou grávida e vivem me dando o lugar.
- ... - glup.
Tá, isso é possível. Mas, como é possível essas mulheres que só percebem que estão grávidas quando o filho sai? Nisso eu não acredito.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A evolução das piadas em sala de aula


Não era só de corredorzinho e de campeonatos ligeiramente fracassados de futebol que minha turma vivia. Dentro da sala de aula, lugar em que teoricamente deveríamos ser mais civilizados, aquelas perguntas capciosas sempre existiram. Traçando um breve desenho histórico, a evolução das piadas foi mais ou menos assim:

1ª série: 
- Vou dizer a tia, que seu pai cagou na pia.

2ª série:
- Sabe quem perguntou por você?
- Quem?
- Ninguém

3ª série:
- Você pinta com meu pinto?

4ª série:
- Tem dado em casa?

5ª série:
- Se eu te der 8 tele-senas, você vende quatro?

6ª série:
- O que você faria se seu filho nascesse heterossexual?
- Ah, eu MATAVA ELE!

7ª série. Essa se aproveitava do bom caráter e do peso na consciência da vítima. Dois combinavam previamente que um deles chegaria para o colega-vítima e o mandaria perguntar ao seu comparsa "sobre o tio dele". Quando ele perguntava, a resposta era algo do tipo:
- Meu tio é tetraplégico.
- ...
Era pior do que pegadinha de Sérgio Mallandro, a pessoa queria morrer.

Já na 6ª série, o que durou até a 8ª e as séries seguintes, descobrir o nome da mãe do colega equivalia a fazer gol em final de Copa do Mundo. Quando ninguém conseguia, a criatividade ajudava, como um que tinha o apelido de "Cheetos" e, portanto, sua mãe era Dona Elma (Chips). Acabaram descobrindo o nome da minha, já que um amigo morava no meu prédio. Tava mais pra inimigo infiltrado.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Como identificar ritmos musicais

Música ruim, tudo bem. Música ruim e alta numa casa vizinha, nada bom. Agora, música ruim e alta, cantada EM KARAOKÊ, é covardia. É com esses períodos de efeito que eu começo uma pequena lição para você que é estrangeiro e que não sabe identificar aos certos os ritmos musicais. Ou, para você que é jovem demais, porém já muito inteligente, pois está lendo este blog. Você pode identificar qual o ritmo musical com base na sensação que lhe for provocada:

1) Se te der vontade de pular e se você facilmente conseguir encaixar gritos de "vai, vai, vai" ou se o(a) cantor(a) mandar o clássico "tira o pé do chão", é AXÉ;

2) Se você se sentir ofendida enquanto mulher, esse ser lindo e maravilhoso que é, ao mesmo tempo em que ouve frases do tipo "vai, sua safada, vai, vagabunda" e presencia supostos homens que requebram mais (e não "melhor", fique claro) que você, é PAGODE;

3) Se você se sentir ofendida enquanto mulher, esse ser lindo e maravilhoso que é, ao mesmo tempo em que leva tapinhas na bunda, é FUNK. Não importa que lhe digam que "um tapinha não dói", ninguém sai de casa disposto a levar tapas na bunda de um estranho. E nem venha me dizer que pessoas já engravidaram em baile funk, isso é lenda;

4) Se te der vontade de dar outro tipo de "tapa", é REGGAE. Ou, se te der vontade de lavar carros por 10 reais, também, já que é o ritmo oficial dos lavadores;

5) Se te bater um desespero, dando vontade de ligar pra sua esposa preocupado com uma suposta traição, mesmo que você nem seja casado, é BREGA;

6) Se te der vontade de tomar um chopp enquanto conversa com os amigos ou a família, é SAMBA;

7) Se te causar uma estranha necessidade de ligar para um Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) só pra ouvir a música de espera, é MÚSICA CLÁSSICA;

8) Se bater aquela vontade de convidar uma amiga com saia pra dançar uma dança proibida, é LAMBADA e nós nem deveríamos estar falando nisso, uma vez que essa é a "Dança proibida";

9) Se te der vontade de deixar o cabelo crescer, não tomar banho e ser muito mala jogando futebol, é TANGO;

10) Caso você queira fazer malabarismos com pirulito na boca por 15 horas seguidas, é MÚSICA ELETRÔNICA;

11) Caso você tenha vontade de entrar pra uma gangue ou se já fizer parte de uma e estiver esperando sair sua condicional, é HIP HOP;

12) Se te der vontade de simplesmente espancar quem está tocando, duas notícias: a ruim é que é EMO/HAPPY ROCK. A boa é que você não é gay;

13) Caso te dê vontade de curtir as coisas boas da vida, é ROCK;

14) Se você tiver vontade de recitar poemas em vez de cantar enquanto sua cara tá pintada de palhaço e malabaristas ficam descendo de cordas, eu realmente não sei que porra é isso.

Dedico esse post a Mateus Edward, o vampiro-zagueiro-três-pernas e futuro companheiro de vela e de BMW.

domingo, 16 de janeiro de 2011

As 10 piores sensações

Como diria o poeta, nessa vida nem tudo são balas 7 belo. Na verdade, fui eu que falei isso, então pode me chamar de poeteiro. A verdade é que virei noites quase no escuro, com uma fraca luz, enquanto rabiscava e teorizava sobre as piores sensações que posso experimentar nessa vida. A verdade, mesmo, falando sério agora, é que, enquanto eu comia 15 balas sem parar, eu anotei num papel e aqui estou concretizando esse post que, muito provavelmente, será objeto de vários Ctrl + P mundo afora. Tentei elaborar em ordem decrescente de desagradabilidade:

10- Tropeçar na rua
Você pode estar andando sozinho, às 2h da manhã, mas não tem como não dar aquele suor frio de vergonha, equiparável a derrubar 1 kg de manteiga no meio do asfalto ou ser ovacionado por centenas de pessoas no colégio.



9- Pensar, por um momento, que você perdeu a carteira, mas perceber que ela está num bolso diferente
Veja que gozado: já quebrei tantos copos que, se juntasse todos de uma vez e os quebrasse numa loja, digamos que seu dono não precisaria trabalhar nunca mais; já atropelei cimento fresco duas vezes; mas, nunca perdi carteira ou celular. Só que já tive esse breve suor frio várias vezes.


8- Beber água "errado" e ela entrar pelo nariz
Física não é meu forte, mas acho que isso tá meio estranho. Se você engole a água "pra baixo", como ela vai entrar no nariz, que tá acima? É pra se pensar. Se você for uma girafa, desconsidere.




7- Tomar um choque no chuveiro
Falo daquela amostra de choque quando você tem um corte no dedo e o encosta no registro. Se bem que um choque elétrico é 20 vezes pior. Sei disso porque era jovem, tolo e inconsequente, por isso tive a ideia de mudar do modo "inverno" pro "verão" enquanto o chuveiro ainda tava ligado. É muita inteligência.

6- Comer fígado pensando que é bife normal
Passei uns 10 anos dizendo que minha mãe me enganava ao me dar fígado dizendo que era bife e que isso não aconteceria nunca mais. Até que me serviram 2 supostos bifes, não faz nem 2 semanas. Tentei comer o primeiro pedaço e percebi que nem purê de batata fazia aquele "bife tão ruim", como pensei, descer goela abaixo. A cozinheira da casa de minha avó confessou seu engano depois. Maus bocados.

5- Morder papel de alumínio com dente obturado
Não sei o que leva alguém a fazer isso, mas eu sinto que devo recomendar isso a quem nunca o fez.





4- Estar sozinho numa rede até alguém pular e sua cabeça balançar de uma maneira desagradável
É, isso não pode ser pior do que comer fígado.

3- Dar uma topada com o dedo mindinho
É pior do que bater a testa na porta da sala de aula lotada. Voz da sabedoria.

2- Tomar uma bolada nas partes baixas
Se você for mulher, acho que equivale a se depilar 5 vezes. É, mesma coisa.





Aqui, houve um empate:
1- Mosquito/moriçoca voando no ouvido
O que eu xingo quando isso acontece não é brincadeira. Geralmente, vem um outro mosquito vingativo depois, provavelmente mãe do primeiro. História verídica.

1- Comer cebola sem querer
Prefiro um pedaço inteiro de fígado.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Como fazer um BBB interessante



Oba, hoje começa aquele programa extremamente instrutivo, muito original e que ninguém fica enchendo o saco comentando no twitter ou participando de comunidades toscas no orkut. Mal posso conter minha empolgação. 
Se eles "topam tudo" pelo prêmio de 1 milhão ou sei lá quanto, por que não fazer jus a essa expressão? Tenho vergonha em chamar isso de teoria, porque pressupõe que eu dediquei um certo tempo da minha vida pensando sobre isso, ao invés de fazer coisas mais importantes, como varrer a garagem de casa. 


Prova da comida
Ficar jogando bolinhas num cesto ou pescando peixes de papel com uma vara de ímã é muito fácil. Se quem tá ali "topa tudo por 1 milhão", bem que poderiam jogar um leão. No final, era só contar quem permaneceu com mais membros do corpo que ganhava. Na outra semana, algo mais bondoso: um javali e uma lança, come quem ajudar a derrubá-lo.


Eliminação-relâmpago
O primeiro que falasse "as máscaras vão cair" ou "o Brasil está vendo como eu sou", iria embora.


Eliminação-relâmpago coletiva
O primeiro grupo que brindasse, com champanhe, gritando "aha, uhu, o Big Brother é nosso", iria pra casa. Ótima maneira de encurtar o número de participantes em pelo menos a metade.


Prova de fogo 
Cada vez que Pedro Bial chamasse a casa de "nave BBB" ou os participantes de "meus guerreiros", ele tomaria uma chicotada. Ou então, uma chicotada pra cada tentativa de manifestação artística, principalmente nas eliminações. Como poesias/lusíadas na hora das eliminações. Eu sei porque, graças aos seus grandes textos de 5 páginas, dá tempo de você passar por todos os canais e testemunhar aqueles momentos de vergonha alheia.


Prova do carro
Ficar em pé sem poder se sentar ou amontoado num carro por horas é moleza. Quero ver ir na Rocinha, dar um tapinha de leve na cara de algum traficante e voltar correndo. Isso, sim, é merecedor de um carro zero.


É isso, e esses foram 30 minutos da minha vida que não voltam mais.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Não atenda a porta

Quando você tem um blog, parece que algumas coisas caem no seu colo. No entanto, às vezes você parece não saber aproveitar. Há uns 2 dias, tocaram a campainha lá de casa e fui atender. Como a experiência no meu bairro não foi das mais positivas, você fica com um pé atrás. Há pouco mais de 2 anos, dei 20 reais pra um menino que se disse filho do vigia e que iria precisar operar a perna. Parei pra pensar depois e achei meio difícil aquele vigia ter um filho daquela idade. Acontece que o garoto me mostrou a perna perebenta, então fui convencido. Mais recentemente, uma mulher veio pedindo um remédio pra bronquite, pra criança. Como a gente não tinha, meu pai deu 20 reais pra ela. Não sem uma certa resistência por parte da mulher, que disse que no dia seguinte traria o dinheiro. Quem disse que ela foi?


Meses depois, uma mulher parecida veio com a mesma história. Mas eu, 20 reais mais pobre, porém mais sábio, falei:
- Nem me venha com essa, uma mulher pediu esse mesmo remédio, demos 20 reais e ela nunca mais voltou.
- Mas eu não to pedindo dinheiro, não, moço...
- É, mas se eu te der, você não vai recusar, né?
- Não, moço - e foi saindo.
Meu problema não é ajudar, meu problema é com pessoas que gostam de:
"Art. 171 - Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento"
Por essas razões, fiquei meio assim nessa última investida. A mulher de alguns dias:
- Olá, posso tomar um pouco do seu tempo? Qual é seu nome?
- Tudo bem. Tiago.
- Meu nome é Fulana, essa é Fulana 2, você tem bíblia em casa, Tiago?
- Er... acho que sim (tenho google).
- Você sabe qual é o nome do Criador, Tiago?
- Deus...?
- Deixe eu ler esse pequeno trecho da bíblia, pra você ler na sua e refletir.
- Tá.
- "...Jeová...". Viu, Tiago, o nome Dele é Jeová, não Senhor ou Deus, que são somente títulos.
- Ahh...
Pensei: "putz, é testemunha de Jeová, eu posso fazer umas perguntas". Na verdade, eu comecei a lembrar disso na hora.
- Eu vou deixar um tratado pra você ler. Pode escolher um - e abriu um caderninho com uns folhetos pequenos nas páginas de plástico.
Pensei: pronto, lá se vão mais 20 reais...
- Você... vai me dar?
- Sim, escolha um.
Escolhi e peguei. Ela agradeceu e foi embora. Não perdi 20 reais, mas perdi a grande oportunidade de perguntar que maluquice é essa de ser contra transfusão de sangue. Atender a campainha lá em casa é igual a sair perdendo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Resoluções de ano novo


Resoluções de ano novo são como broncas de mãe: sempre a mesma coisa e não adiantam nada, porque a galera sempre tá fazendo besteira. Eu acho que a questão não é você se organizar e traçar objetivos, isso qualquer pessoa deveria fazer sempre na vida. O problema é quem acha que o mundo vai acabar dia 31/12 e recomeçar dia 1º de janeiro. Que basta pular 7 ondas, pedir pra "Fulano de Oxum" jogar uma água maluca em você ou colocar caroços de uva na carteira que seus problemas serão resolvidos.
Eu mesmo já coloquei - por sugestão de uma tia-avó - caroços na carteira. A única resolução que isso trouxe foi ter me obrigado a comprar uma carteira nova. Também já determinei como meta aprender a tocar saxofone. Escrever num papel ajuda bastante. Nesse caso, me ajudou a parar de ser bichinha e ter metas de homem. Afinal, saxofone só serve pra duas coisas: trilha sonora de filme pornô e tocar em formaturas. A cada festa, Kenny G fica mais rico. Desafio quem nunca ouviu essa música em nenhuma celebração a comentar aqui. Essa tocou na minha Formatura do ABC, com 7 anos, e na da faculdade, aos 23. 
Quem pula ondas e guarda caroços de uva certamente deve acreditar em horóscopo. Eu não consigo compreender como Marte se alinhar com Saturno pode influenciar minha vida. Se Marte se chocar contra a Terra é que eu posso começar a acreditar. E outra: só porque determinadas pessoas nasceram em datas próximas significa que elas são muito parecidas ou iguais? Então, só há 12 tipos de personalidade no mundo? Que loucura.
Por isso, eu vou ser bem legal e colocar algumas sugestões de itens para as pessoas seguirem no ano que se aproxima:






1- Parar de andar na esquerda a 40 km/h
Ou minha cidade concentra o maior número de barbeiros por metro quadrado do mundo ou isso acontece também em outros lugares e eu devo fazer uma camisa e abraçar ainda mais essa ideia. Minha mãe quase derrubou um cara de moto que fazia isso. Foi massa, mas tive um medo da porra.


2- Parar de ouvir músicas bregas/ruins dizendo que é engraçado
Quando você coloca "gata da academia" no carro, à beira da piscina e em qualquer festa pelo menos 5 vezes, você não acha a música engraçada, você gosta dessa porcaria. E não to falando do meu irmão, ele acha engraçado e gosta. Falo das pessoas sem personalidade.

3- Parar de jogar lixo na rua
Na primeira série, um menino de outra turma entrou no meio da aula e pediu pra cantar uma pequena canção de sua autoria. Era assim: "Jogue lixo no lixo, não jogue lixo no chão, vamos deixar esta escola bonita como esta canção". O nome dele era Fiuk. Brincadeira, era meninO. Eu levei isso pra sempre e transformei em tapas na cabeça ou buzinadas e um grito de "seu porco!". Tá, nunca gritei pra ninguém, mas já dei cada olhada, mêu...


4- Atendentes de telemarketing
Aqui não há nenhuma necessidade de "parar" algo, é de exterminar mesmo. Um exemplo foi esse. Mas ele pelo menos só era tapado, o pior é quando ligam do banco. Até aí tudo bem, normal. Só que quando perguntam "se o senhor poderia informar o motivo do não-pagamento", isso me irrita. "Isso é irrelevante", eu respondo. Sim, vou fazer um curso de respostas-baixaria em 2011, que resposta...


5- Parar de usar expressões de retardado
"Ninguém merece", "aloka", "ficadica", "a festa foi mara" são autoexplicativas. Eu realmente queria conhecer quem criou alguma delas. Não, eu não queria.


6- Parar de falar "vem, 2011"...
... quando ainda estamos em novembro é algo para parar e se pensar. 


7- Parar de usar pedaços pequenos de cebola quando você sabe que eu vou comer na sua casa
Quase vomitei agora.


8- Parar de ouvir música alta e ruim no celular quando você não me conhece e tá na sala de espera de algum lugar
Quem gosta de Pink Floyd ou Chico Buarque não sai por aí esfregando na cara das pessoas. Pensem nisto.


9- Parar de falar "ah, o verão" 
Além de eu odiar essa expressão, o que me irrita é gente que fala isso e mora no Nordeste. SÓ HÁ VERÃO no Nordeste. Fale isso e vá andar no centro vestindo uma blusa preta, vá.


Acho que é só, Feliz Ano Novo, vocês que me acompanharam neste ano. OBRIGADUUUUU!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Corredorzinho

Corredorzinho é um eufemismo, uma denominação afetuosa para o temido "corredor da morte". Todos aqueles que participavam do jogo ficavam ao longo de um corredor de guris formado ao longo da quadra de futsal. A vítima tinha que atravessar de uma trave à outra com o menor número de hematomas possível.
Mas esse não era o único elemento da brincadeira. Na época de colégio, a generosidade e a ternura das crianças são algo que até hoje resgato em minhas memórias, especialmente quando animado por esse espírito natalino do momento. O corredorzinho era a punição alternativa de uma brincadeira chamada "três beijinhos". Esta, por sua vez, tinha como principal mandamento que, toda vez que os participantes se sentassem, teriam que pedir licença. Se não pedissem, teriam que dar três beijos numa menina que os outros escolhessem. Como o altruísmo não fazia parte do vocabulário de ninguém, a escolha era sempre uma das meninas, digamos assim, desprovidas de uma beleza externa. 


E já que a falta de noção era a primeira regra (afinal, olha as coisas que a gente topava), ninguém queria dar os beijos. E nem eram na boca, eram na bochecha. A juventude era mesmo genial: "Não, eu não quero dar três beijos na face de uma semelhante e perder até a chance de começar uma bela história de amor". Nem passava pela nossa cabeça que muitas evoluem, quando maiores. No Manual de Sobrevivência do ginásio, o que valia era o presente. E só.
Em algum momento da brincadeira deslizes seriam cometidos. E então, um bando de garotos sedentos por violência fariam justiça com as próprias mãos. Pra falar a verdade, não sei como nenhum colega não levou nada disso pra vida. Porque deixar de dar meros beijos numa menina pra encarar socos e chutes, enquanto outros sonhavam em aplicar esses mesmos golpes é bem deturpado. Se bem que, no meu caso, isso pode explicar muita coisa kkkkk.
Algumas partidas foram memoráveis. Acho que a maior fatalidade que vi foi quando um amigo, que estava quase alcançando a trave, tropeçou e quebrou o braço. Fora isso, as sequelas foram mais psicológicas. Se não saía sangue, tava valendo. 
Tinha um outro colega que detém o recorde escolar de apanhar de todos os meninos na sua turma. Vamos apenas chamá-lo de b-b-beiço, porque ele era beiçudo e gago. Ele era tão legal que o que acontecia era o seguinte: ele participava com, digamos, 12 outros colegas. Quando ele não pedia licença e ia para o corredorzinho, milagrosamente apareciam 30 meninos esperando pra espancá-lo. Acho que até de outras turmas. Mas ele sempre sobrevivia.
Acabou sobrando pra mim também. Mas não aconteceu nada demais. Acho que todo mundo, em algum momento da escola, já pegou carona de ambulância.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Se meu fusca falasse...

Meu irmão é um negociante nato. Até demais. É só ele aparecer na porta do meu quarto falando "vamos fazer uma troca" que eu já tremo. Na época da copa, queria trocar uma figurinha dele por duas minhas. Quase aceitei.
Enquanto meus feitos como pechinchador são tão vastos quanto as teorias sobre física quântica que elaborei, ele vende o que quiser. Seu negócio mais célebre foi quando ele trocou um celular (e mais um dinheiro, segundo ele) por um Fusca. O carro passava cerca de 20 dias na oficina e 5 na rua. Nesses 5 dias, parava algumas vezes, como na hora dele ir para a faculdade, no horário mais movimentado. Bem em cima da ponte.


foto antes (ou depois?)


Estou sendo um pouco injusto, ele até já me deu carona para o estágio uma vez. 
- O que é esse barulho aqui?
- Aqui onde?
- Aqui no carro inteiro.
Fui colocar o cinto, mas cadê?
- Não tem nem cinto, que merda é essa?
- kkkkkk, vou colocar (ele deu seu sorriso amarelo).
Claro, beleza primeiro, segurança em último. Cheguei no estágio podre a gasolina.
O carro também estava com um pequeno problema nos faróis: nenhum deles funcionava. Tamanha era sua sorte que um dia ele chegou em casa todo molhado. Tinha chovido e ele teve que ir a 20 km/h, com a cabeça colada no pára-brisa pra enxergar. Falei:
- Pelo menos você tava de cinto.
- Hehehe (sorriso amarelo).
Sua visão de investimento também era incrível:
- Eu vendi o carro por 8 mil reais, meu amigo.
- Você gastou sete mil nele.
- Tá, mas ganhei.
Quase um Eike Batista.
Ele acabou vendendo o carro, acho que foi pra São Paulo. Ele até hoje diz que era insuportável andar na rua, que todo mundo parava pra perguntar quanto queria. Acho que era "quanto você quer pra tirar o carro da frente", não sei. Quando ele ler isso, vai aparecer no meu quarto querendo trocar uma lâmpada por um notebook. E eu acho que vou aceitar, que droga.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Amor bruto

Hoje eu vou falar algo que me tira do sério. Algo que, quando penso nela, meu raciocínio e minha lucidez ficam comprometidos. Quando estou correndo e sinto seu cheiro, perco um pouco a força, quase paro. Pipoca.

se bem que...

Tem gente que dedica sua existência inteira buscando o sentido da vida. Outros, atrás de petróleo. Eu, desde quando me dou por gente com dentes o suficiente para o milho ficar preso entre eles, só tenho um objetivo: saber fazer uma pipoca igual à do pipoqueiro.
Já tentei me vestir com aqueles jalecos e o chapéu branco que eles usam, me entrosando em portas de igreja (sua clientela clássica). Já me inscrevi em Conferências Regionais dos Pipoqueiros, sempre atrás do Grande Segredo. Tentei até colocar a pipoca num saco de papelão, mas sem sucesso. 


O que será que eles fazem pra dar AQUELE sabor? Será que o fato de você pagar 1 real por algo que, em 1 minuto, acaba, o deixa tão gostoso? Será que a fórmula é Pipoca = panela amassada + vento + óleo de precedência duvidosa? Uma amiga me disse que eu deveria acrescentar à formula a constante "falta de cuidado com higiene pessoal". Ela até me aconselhou a não lavar as mãos antes de ir na cozinha fazer essa iguaria, seria uma ofensa. Apesar de costumar ser sensata nas suas observações, não acho que ela tenha razão. Isso é coisa de quem amava algodão doce, daqueles que vendiam na praia naqueles sacos de plástico. Até sua mãe dizer:
- Minha filha, COMO você acha que aquele sujeito fez pra encher aquele saco? COM A BOCA, NÉ!
Nunca mais ela comeu algodão doce.
Amassar a pipoqueira, além de arriscado, é um caminho sem volta. Eu, com certeza, levaria uma bela bronca daquela que me trouxe ao mundo. Quebrar uma média de 6 copos por ano já é demais pra uma mãe. E pra mim também.
Ontem eu tentei inovar, sempre em busca da pipoca perfeita. Coloquei a manteiga antes de estourar o milho. Ficou muito boa, mas a quantidade de manteiga que coloquei superou em 3 vezes aquilo que eu considero ideal pra um coração saudável sofrer num só dia. Não acho que essa seja a fórmula. Também sinto que estou longe de chegar lá. Se eu não colocar óleo, vou colocar o que, água? Bom, pelo menos antes água do que fazer como meu irmão, que não colocou óleo e fabricou um negócio preto.